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Cannabis medicinal no manejo da dor crônica: eficácia e uso clínico

há 6 dias
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Atualizado: há 2 dias


A dor crônica é um problema de saúde pública, tanto pela sua elevada prevalência quanto pelos efeitos que pode causar na qualidade de vida. De modo geral, é definida como uma dor que persiste ou recorre por mais de três meses. Além do desconforto físico, pode dificultar a realização das atividades diárias, prejudicar as relações sociais, além de afetar o bem-estar psicológico (Kanematsu, 2022; Mota, 2020)

De acordo com seus mecanismos e sua origem, a dor crônica pode ser classificada em diferentes tipos, entre eles a dor neuropática, relacionada a lesões ou disfunções do sistema somatossensorial; a dor musculoesquelética, que envolve músculos, articulações, ossos e tecidos periarticulares; e a dor oncológica, associada ao tumor, às metástases ou aos tratamentos contra o câncer (Rangel, 2014). As particularidades de cada tipo de dor reforçam a necessidade de buscar estratégias terapêuticas que possam complementar os tratamentos convencionais.

Nesse contexto, a cannabis medicinal tem sido estudada como uma alternativa no manejo da dor. Esse interesse está relacionado principalmente à ação de seus fitocanabinoides, como o Δ⁹-tetraidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), sobre o sistema endocanabinoide e outras vias envolvidas na nocicepção, na inflamação e na modulação da dor. Dessa forma, a análise crítica da eficácia, da segurança e das indicações clínicas da cannabis é essencial para compreender seu real papel no tratamento da dor crônica (Bonfá, 2008).


SISTEMA ENDOCANABINÓIDE

O sistema endocanabinoide (SEC) participa da modulação da dor por mecanismos de neuromodulação e imunomodulação em níveis supraespinal, espinal e periférico. É constituído pelos receptores CB1 e CB2, enzimas relacionadas à síntese e metabolismo e ligantes endógenos, como anandamida e 2-araquidonoilglicerol (2-AG), envolvidos na regulação de diferentes processos fisiológicos, incluindo dor e inflamação (Hammed, 2023).

O THC atua como agonista parcial nos receptores CB1 e CB2. A ativação dos CB1 reduz o influxo de cálcio e a liberação de neurotransmissores, como GABA e glutamato, contribuindo para a modulação da transmissão nociceptiva e para a ativação de vias descendentes inibitórias da dor. Já o CB2 está relacionado principalmente à modulação de processos inflamatórios e de citocinas pró-inflamatórias (Hameed, 2023).


O THC exerce efeitos analgésicos principalmente pela ativação dos receptores canabinoides e pela modulação da neurotransmissão nociceptiva. O CBD apresenta perfil farmacológico distinto, podendo contribuir para a modulação da dor, da inflamação e da excitabilidade neuronal. Além disso, o CBD inibe a recaptação da anandamida, potencializando sua ação anti-inflamatória via receptores TRPV1 e GPR55. Essa diferença farmacológica pode ser considerada na seleção de formulações com maior proporção de CBD quando se busca reduzir a exposição aos efeitos psicoativos (Hameed et al., 2023; Aviram, 2017).

A combinação CBD:THC apresenta possível sinergismo farmacológico (efeito entourage), com evidências de maior eficácia em comparação ao uso isolado de cada canabinoide para a dor neuropática e oncológica.

 

EVIDÊNCIAS CLÍNICAS

A meta-análise de Aviram et al. reuniu dados de 43 ensaios clínicos controlados que demonstraram redução significativa e clinicamente relevante na intensidade da dor crônica entre os pacientes que utilizaram formulações canabinoides, em comparação com aqueles que receberam placebo.

Esse resultado também foi observado na revisão sistemática de Johal et al., que analisou 36 ensaios clínicos e mais de 4.000 participantes. Nesse estudo, o uso de canabinoides foi associado ao alívio da dor crônica não oncológica. A revisão de Johal et al. também apresentou que o maior benefício foi observado principalmente entre a segunda e a oitava semana de tratamento. Essa janela de tempo pode auxiliar na titulação da dose e na avaliação da resposta individual de cada paciente.

Além disso, a revisão de Mücke et al. demonstrou benefícios em condições neuropáticas complexas, como a neuropatia periférica dolorosa, a dor central associada à esclerose múltipla e a neuralgia pós-herpética. Nesses casos, os canabinoides proporcionaram alívio substancial dos sintomas e uma melhora relevante na percepção geral dos pacientes sobre sua evolução clínica. A heterogeneidade de desfechos frequentemente descrita na literatura, bem como a ressalva apontada por Hameed et al. quanto à cannabis não constituir uma monoterapia de primeira linha, exige uma leitura clínica contextualizada.

As diretrizes convencionais recomendam gabapentinoides, antidepressivos tricíclicos e inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina como abordagens iniciais (Brasil, 2024); entretanto, essas classes podem apresentar taxas relevantes de abandono devido à intolerância e à sedação. Assim, muitos pacientes apresentam resposta parcial ou refratariedade ao tratamento.

Nesse contexto, os canabinoides podem assumir papel terapêutico adjuvante em condições neuropáticas de difícil controle, potencializando a analgesia por mecanismos complementares e possibilitando a redução da dose de medicamentos basais de maior toxicidade cumulativa. A variabilidade dos resultados entre os estudos está relacionada, entre outros fatores, às diferenças entre quimiotipos, vias de administração e concentrações de THC e CBD, reforçando a importância do uso de formulações padronizadas e tituláveis (Hameed et al., 2023).

Em ensaio clínico de Fase 3, Karst et al. (2025) avaliaram 808 adultos com dor crônica, com e sem componente neuropático. Após 12 semanas, apresentaram redução da intensidade da dor superior ao placebo, além de melhora dos sintomas neuropáticos em participantes com radiculopatias. Também foram observadas melhorias no sono, capacidade funcional e qualidade de vida, acompanhadas de redução no uso de analgésicos de resgate, o que pode contribuir para diminuir a exposição prolongada a opioides e anti-inflamatórios não esteroidais e, consequentemente, riscos associados, como tolerância farmacológica, nefrotoxicidade e sangramentos gastrointestinais.

Sob a perspectiva da segurança e tolerabilidade, a revisão de Solmi et al. (2023) indica que os eventos adversos mais frequentemente são leves a moderados, destacando-se sonolência, tontura e boca seca. Esses efeitos tendem a ser dose-dependentes e são observados principalmente durante a introdução e a titulação do tratamento. A utilização de doses iniciais baixas e aumento gradual da dose (start low, go slow) pode favorecer a tolerabilidade e o manejo desses eventos.

Em comparação aos opioides, os canabinoides apresentam menor risco de depressão respiratória. Dessa forma, as evidências disponíveis sustentam seu uso como uma opção terapêutica individualizada, especialmente em pacientes com dor neuropática crônica, considerando-se o equilíbrio entre potenciais benefícios e riscos (Shafie, 2025).

No contexto das manifestações neuropáticas periféricas, a via tópica se apresenta como potencial alternativa terapêutica, especialmente em indivíduos idosos ou em uso de múltiplos medicamentos. Em ensaio clínico randomizado e placebo-controlado, Xu et al. (2020) observaram que a aplicação tópica de CBD em pacientes com neuropatia periférica sintomática de membros inferiores, durante quatro semanas, promoveu redução significativa de dores lancinantes, queimação, sensações térmicas anormais e prurido. O estudo não relatou eventos adversos sistêmicos, sugerindo boa tolerabilidade da formulação tópica. Esses achados indicam potencial benefício do CBD tópico no alívio sintomático de neuropatias.


PRÁTICA CLÍNICA

O estudo de Kanematsu et al. demonstrou que a dor interfere na concentração, na locomoção, nas atividades diárias, no trabalho, no sono e nos sentimentos negativos. Dessa forma, uma resposta terapêutica adequada pode ser definida como melhora combinada da dor, da função e da qualidade de vida, e não necessariamente como desaparecimento completo do sintoma.[FM1] 

Na prática, o princípio “start low, go slow” é particularmente relevante quando há THC, devido ao maior potencial de sedação, alterações cognitivas, sintomas neurológicos e efeitos psiquiátricos. A dose deve ser ajustada de acordo com a resposta clínica, a tolerabilidade, a idade, as comorbidades e o uso concomitante de outros medicamentos. O tratamento deve ser interrompido ou reduzido quando não houver benefício clinicamente significativo ou quando os efeitos adversos superarem a melhora obtida (Ateş et al., 2026)

As metas terapêuticas incluem mais do que a redução numérica da dor. Os estudos utilizaram intensidade da dor, redução de pelo menos 30% ou 50%, impressão global de melhora, qualidade do sono, função física, qualidade de vida e uso de medicação de resgate. Esses desfechos são mais úteis para determinar benefício clinicamente relevante (Ateş et al., 2026; Karst et al., 2025).

Entre os idosos, o uso de canabinoides (em especial em protocolos com quantidades significativas de THC) requer atenção redobrada, considerando a ocorrência de tontura, sedação e alterações cognitivas, eventos frequentemente descritos (Chou et al., 2025). Essas manifestações podem aumentar o risco de quedas, enquanto a polifarmácia característica dessa faixa etária pode intensificar as interações farmacocinéticas.

Nesse contexto, o CBD atua como inibidor de enzimas do citocromo P450, especialmente CYP2C19 e CYP3A4, podendo aumentar as concentrações de anticoagulantes orais, antiepilépticos e benzodiazepínicos. Por sua vez, o THC é metabolizado pelas enzimas CYP2C9 e CYP3A4, apresentando potencial para interações relevantes por essa via (Hameed et al., 2023). Diante dessas características, formulações tópicas, por apresentarem baixa absorção sistêmica, representam uma alternativa pragmaticamente segura (Xu et al., 2020).

Em relação aos opioides, um ensaio clínico de fase 3, que realizou comparação direta, demonstrou que o extrato padronizado promoveu maior redução da intensidade da dor e melhor tolerabilidade gastrointestinal quando comparado à terapia opioide convencional em pacientes com lombalgia crônica (Meissner et al., 2025). Da mesma forma, uma revisão em rede de ensaios clínicos randomizados (Jeddi et al., 2024) também aponta um potencial efeito de poupança de opioides.

Ainda assim, a utilização concomitante de canabinoides e opioides requer atenção quanto à possibilidade de sedação e depressão do sistema nervoso central. Embora os canabinoides não compartilhem o risco de depressão respiratória, que constitui uma limitação central da toxicidade dos opioides, essa associação ainda demanda monitoramento (Chou et al., 2025).


CONCLUSÃO

Na prática clínica, o sucesso da terapêutica canabinoide depende de triagem adequada, estabelecimento de metas terapêuticas, monitoramento sistemático da resposta e critérios de continuidade ou descontinuação. Formulações padronizadas e tituláveis, aliadas ao princípio start low, go slow, configuram a abordagem mais defendível pela evidência atual. Por fim, os canabinoides se inscrevem como estratégia complementar em um plano multimodal de manejo da dor, cuja medida de êxito é a recuperação da funcionalidade e da qualidade de vida do paciente, e não apenas a redução de um número em uma escala.

Ao mesmo tempo, essa análise exige equilíbrio. A heterogeneidade entre formulações, quimiotipos, vias de administração e proporções THC:CBD, somada às limitações metodológicas dos ensaios (cegamento incompleto, durações curtas, amostras restritas), torna inevitável uma leitura crítica e individualizada da literatura.

Os eventos adversos, em geral leves a moderados e dose-dependentes, são manejáveis por meio de titulação gradual, seleção criteriosa de pacientes e atenção às interações farmacocinéticas; particularmente em idosos, pacientes em uso de múltiplos medicamentos e no contexto de dor oncológica.

Após a análise das evidências disponíveis, propõe-se a sistematização de um protocolo clínico orientado por critérios de eficácia, segurança e aplicabilidade dos fitocomplexos avaliado.

 


 

MATRIZ DE SUPORTE À DECISÃO CLÍNICA

 

Fenótipo clínico

Alvo terapêutico

Racional científico

Ferramenta farmacológica Be Natural

Dor neuropática difusa (radiculopatias, neuropatia periférica sintomática)

Modulação da excitabilidade neural

Elevação do tônus de anandamida (inibição de FAAH), modulação TRPV1 e 5-HT1A

Dor neuropática localizada — especialmente idosos e polifarmácia

Modulação do ambiente inflamatório

Ativação de CB1/CB2 cutâneos e dessensibilização de TRPV1

Dor com componente inflamatório/musculoesquelético

Modulação do ambiente inflamatório crônico

 

 

 

CBG como agonista 5-HT1A e α2-adrenérgico + resposta antioxidante; sinergia potencial 1:1 CBD:CBG na modulação de mediadores inflamatórios

Dor crônica refratária

Homeostase neural

THC mimetiza anandamida e modula transmissão nociceptiva central; CBD mitiga efeitos psicoativos na proporção 1:1

Insônia e fragmentação do sono associadas à dor crônica

Ciclo circadiano

CBN como modulador de arquitetura do sono + melatonina; melhora do sono

As sugestões de intervenção baseiam-se nas razões validadas nos ensaios clínicos, utilizando o portfólio Be Natural como padrão de referência cGMP


 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- ATEŞ, G.; WELSCH, P.; KLOSE, P.; PHILLIPS, T.; LAMBERS, B.; HÄUSER, W.; RADBRUCH, L. Cannabis-based medicines for chronic neuropathic pain in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2026. PMID: 41548880.

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- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da dor crônica. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/d/dor-cronica/view. Acesso em: 16 set. 2026.

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